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América do Norte

Duas semanas em Cuba – Trinidad e Varadero

Este artigo é a continuação dos dois artigos anteriores sobre Cuba, em Viñales, Playa Girón e Cienfuegos. A viagem continua, e desta vez para Trinidad com uma passagem por Varadero, um dos paraísos cubanos.

A caminho de Trinidad

Devo confessar que os 3 dias que passei em Playa Girón não foram suficientes. Uma vila que de início não esperava muito, e que acabei por adorar. Preparar a mala e ir para outro autocarro não foi fácil, principalmente sabendo que alguns dos meus novos amigos iriam lá ficar para mais uns mergulhos e aventuras.

Voltei a apanhar um “bicitaxi”, os taxis de bicicleta que se vêem por todo o lado em Cuba, e com a bagagem lá fui para a paragem de autocarro com destino a Trinidad.

Escolhi esta rota pois tinha autocarro de Playa Girón para Trinidad sem ter de fazer trocas, daí ter ficado em Cienfuegos antes de ir para Playa Girón, e agora voltar a passar pela cidade sem sair do autocarro. A viagem não é muito longa, mas ligeiramente desconfortável.

Explorar Trinidad e arredores

Ao chegar a Trinidad fiquei logo com uma boa impressão da cidade, bem bonita e claramente com traços da era colonial. Casas baixas e características, ruelas de calçada e com um centro histórico pequeno mas bem bonito. Isto para não falar das cores das casas em tons pastel. Foi paixão à primeira vista!

Encontrar a minha casa particular não foi complicado, mas entrar já foi outra história…, estive algum tempo a bater à porta, até que um vizinho gritou a avisar que tinham clientes. Lá apareceram, deixei as minhas coisas e decidi ir procurar uma farmácia, que não me estava a sentir lá muito bem. Coisas que acontecem durante as viagens, e eu sem medicamentos…

Taxi clássico em Trinidad
Taxi clássico em Trinidad

Quando recomendo a levarem alguns medicamentos convosco em viagem é por motivos como este. Corri parte da cidade à procura de uma farmácia, fui a um hospital onde me bloquearam logo à entrada. Em Cuba existe uma separação entre hospitais para locais e turistas, com preços também muito diferentes (devido ao comunismo, isto foi bem óbvio para mim). E lá me indicaram como chegar à farmácia do turista. Sim, bem claro que é para turistas, e bem caro….

Entretanto aproveitei para ir conhecendo um pouco mais da pequena cidade, nota-se claramente quando se sai do centro histórico e entramos numa zona mais realista da Trinidad cubana. Dá para perceber quais são as zonas mais ricas e quais as zonas mais desfavorecidas, mas também são nessas zonas que nos deparamos com os cubanos.

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Como já referi anteriormente num outro artigo, a internet em Cuba é muito limitada, mas existem áreas onde podemos aceder a uma internet pré-paga com cartão com tempo limite. Essas áreas são por norma parques ou praças principais, e muita gente (principalmente turistas) se juntam lá, quase sem falarem uns com os outros.

No entanto, comigo aconteceu um pouco o oposto. Sentei-me num banco, junto a outro rapaz, liguei a internet e lá comecei a navegar ou a pesquisar algo. Quando minutos depois aparece outro rapaz que começa a falar em português com o que estava sentado ao meu lado! Quais as probabilidades disto acontecer? Claro que meti logo conversa, e passados uns minutos aparecem mais outros dois portugueses (que eles já tinham conhecido antes)! Acabei por passar parte da tarde com eles, e irmos jantar todos juntos.

Caminhada para o Parque El Cubano

O dia seguinte foi para explorar natureza. Como já tinha isto planeado, acabei por passar o dia com outro grupo. Fiz a marcação pelo AirBNB, primeira vez que usei o AirBNB para excursões, e diga-se de passagem que correu tudo muito bem!

Quando se trata de passear, sou extremamente pontual! Se há coisa que me tira da cama facilmente é a vontade de explorar! Então fui logo o primeiro a chegar ao ponto de encontro e conhecer o anfitrião da caminhada até ao Parque El Cubano.

Cascata no Parque El Cubano
Cascata no Parque El Cubano

Na verdade nem sabia bem o que esperar, apenas sabia que queria conhecer mais da natureza de Cuba, e que supostamente iríamos para uma cascata.

Como é um pouco de esperar neste tipo de eventos, há sempre gente que chega atrasada, então acabámos por esperar uns 10-15 minutos por todos. Entretanto deu para ir falando com o anfitrião, e conhecer um pouco da perspectiva cubana.

Para nós, que vivemos numa realidade não comunista, é um pouco complicado perceber como as coisas funcionam numa realidade completamente diferente. Comprar casa é algo que apenas recentemente entrou na realidade cubana, antes as propriedades e casas passavam de pais para filhos, mas não eram nem vendidas nem compradas. Quando perguntámos o que ele achava disso, a resposta foi simples. Essa era a nossa realidade, não existia outra perspectiva.

O nosso grupo foi algo diversificado, um português (eu), americanas, um casal suíço, e mais algumas pessoas com quem eu pouco falei.

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O passeio começou logo no centro de Trinidad, e fomos sempre a pé até à cascata. Pelo caminho fomos falando com o guia e tentando aprender cada vez mais sobre Cuba e a cultura cubana. Ficámos a saber que ele tem formação de médico, mas que como guia turístico faz muito mais dinheiro do que como médico. Cada pessoa naquele grupo correspondia a um mês de salário dele como médico… Numa manhã ele ganhou o equivalente a um ano como médico em Cuba.

Algo que notei assim que cheguei ao pé do guia foi também o facto dele ter um fio com as cores do arco-íris. Poderia ser apenas coincidência, mas depois reparei que ele também tinha um pin de apoio à comunidade LGBT. Assim que pude aproveitei a oportunidade para lhe perguntar como é a realidade LGBT na ilha, e fiquei bem surpreso com o que ouvi. Sim, ainda existe muita homofobia, mas ironicamente a maior voz de apoio à comunidade LGBT é a sobrinha do Fidel Castro. A sobrinha da pessoa que foi responsável pela morte de muita gente gay pelo simples facto de serem gays. A mentalidade está a mudar, felizmente.

A caminho da cascata vimos, finalmente, o pássaro nacional de Cuba. O tocororo. Além das cores que coincidem com a cor da bandeira Cubana, o pássaro também representa a mentalidade cubana de lutar por liberdade até à morte. Segundo o guia, este pássaro, quando em cativeiro, luta para fugir ao ponto de poder mesmo morrer esgotado.

Cavalo em primeiro plano com o Parque El Cubano ao fundo
Cavalo em primeiro plano com o Parque El Cubano ao fundo

E finalmente na cascata! Água cristalina, uma cascata pequena, mas com uma gruta por detrás! Que claro, que tive de nadar para lá para dentro! E lá dentro? Alguns morcegos! Claramente que estava em baixo de forma, fiquei cansado rapidamente, então volta e meia tinha de me agarrar às rochas junto ao rio, mas sabe tão bem nadar em águas tão cristalinas e puras! Saí e voltei algumas vezes, enquanto algumas pessoas do grupo nem sequer entraram na água… Mas cada qual é como é, e eu adoro estar dentro de água!

A volta foi ligeiramente diferente, fomos até a um parque de piqueniques, comemos, e depois fomos todos num taxi até ao centro de Trinidad. Mas devo confessar que apesar de cansado, estava com vontade de mais caminhadas! Estar no meio da Natureza é algo que nunca me aborrece!

De volta a Trinidad

Depois de uma caminhada bem agradável e de uns banhos refrescantes, só faltava uma boa refeição! Juntei-me ao casal de Suíços e fomos procurar um restaurante, ao que eles já tinham feito o trabalho de casa todo e sabiam que o restaurante Sol y Son seria uma boa aposta. De facto não desiludiu, bastante bom, num pátio bem agradável e sossegado, mas também ligeiramente caro. Mas valeu pela experiência.

Como este seria o meu último dia em Trinidad, sabia que tinha de o aproveitar para conhecer melhor alguns recantos da cidade e aproveitar para tirar algumas fotos. Tinha como opção ou ficar na cidade ou ir à praia, mas acabei por optar por ficar na cidade. Apesar de a praia ter muito boa reputação, não é propriamente o meu tipo de plano de eleição.

Duas semanas em Cuba - Trinidad e Varadero
Duas semanas em Cuba – Trinidad e Varadero

Em locais pequenos, não é de surpreender que as pessoas se cruzem vezes sem conta. No final do dia acabei por voltar a encontrar os portugueses que tinha conhecido no dia antes, e fui jantar com dois deles. Para simplificar e poupar alguns trocos, fomos a um restaurante italiano, onde assistimos a algum drama. Aparentemente alguém pediu a um empregado para carregar o telefone enquanto jantavam, mas o telefone desapareceu….

Roubar em Cuba é um crime bem grave, depois de algum escândalo, assim que a ameaça de chamar a policia foi feita, o telefone apareceu miraculosamente…

Depois do jantar ainda fui tirar mais umas fotos antes de regressar à casa particular, e preparar as coisas para mais uma viagem. Desta vez para Varadero.

A caminho de Varadero

Mais uma viagem longa, mas a última de facto mais chata. Depois de Varadero só restava voltar a Havana. Sinceramente Varadero nem fazia bem parte dos meus planos originais, como já referi algumas vezes destinos de praia não são o meu tipo de férias de eleição. Mas acabei por optar por passar por Varadero por ser mais fácil chegar a Havana.

Sempre que viajo tenho o hábito de deixar a cidade de partida para o final, caso algum imprevisto aconteça fico sempre com alguns dias de margem para resolver o problema. E quando pesquisei sobre Cuba, recomendavam vivamente a marcar tudo com antecedência. Na verdade isto não é bem assim, depende muito da altura do ano, e em Dezembro é perfeitamente okay viajar sem nada marcado. Muitas casas particulares já têm contactos com casas particulares noutras cidades, quase como que uma rede de conhecimentos. Então torna-se fácil marcar a próxima dormida sem grandes confusões. No entanto, eu não sabia disso, então marquei tudo antes de embarcar para Cuba.

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Cuba é um país muito grande, e os acessos ainda não são dos melhores. Não faltavam locais que preferia conhecer em vez de Varadero, mas foi o que acabou por acontecer.

A viagem até lá foi outra confirmação de que podia ter planeado as coisas ligeiramente melhor. Voltei a passar por Playa Girón, o que me deu uma pequena nostalgia. Confesso que gostei mesmo daquela vila pacata.

Confirme me ia aproximando mais de Varadero, mais assustado ficava. O céu bem escuro, pelos vistos nos dias seguintes iria passar um temporal pelo norte de Cuba… Ir para um destino paradisíaco de praia, com um temporal a decorrer, de facto não era a coisa mais agradável… Mas ainda assim, não tinha muitas alternativas, então lá decidi arriscar e ir mesmo até Varadero.

Dois dias em Varadero sem fazer praia

Dá para ficar em Varadero a preço bem barato, existem algumas casas particulares na vila de Varadero, mas a extensão de praias é quase toda ocupada por resorts. Dá para aceder às praias sem problema, são públicas. Mas da vila até ao meio da peninsula ainda é uma distância bem grande. É uma peninsula com apenas 1,2 km de largura, mas com uma extensão superior a 20 km!

No entanto também existem resorts de custo mais acessível, e eu fiquei num deles. Mas o barato também tem as suas desvantagens, e fiquei um pouco desiludido com o que apanhei… Fiquei no Barceló Solimar, com tudo incluído. Desde comida a bebida, sem ter de pagar extra por isso. Só por isso valeu a pena ali ficar, mas o estado do resort de facto provava o motivo de ser barato… Sinceramente não sei se é um local que valha a pena uma recomendação, fica mesmo ao critério de cada um.

Parque Josone em Varadero
Parque Josone em Varadero

Depois de uma viagem longa até Varadero, aquele dia foi mesmo para relaxar. Tanto que nem dava para ir à praia, não estava de chuva, mas estava muito ventoso e não recomendavam a entrar no mar. Então aproveitei para explorar o resort e tentar conhecer um pouco mais daquele local.

Quem frequenta o resort tem de usar pulseiras que nos dá acesso a áreas e coisas diferentes, por exemplo, a minha pulseira dava-me acesso a comida e bebida gratuita, mas o resto seria tudo pago. Enquanto que outras pessoas também tinham acesso à zona remodelada do resort (eu também, mas apenas para frequentar), e com menos acesso do que eu, algumas pessoas e famílias que apenas tinham acesso ao alojamento em si, e todos os gastos pagos à parte.

No dia seguinte tentei improvisar um pouco. Como aproveitar Varadero se não podia ir à praia? Uma das pessoas que conheci em Playa Girón disse-me que sempre que viaja que tenta fazer Geocaching, então pensei, porque não? Vi que caches estavam na zona, e pus-me a explorar um pouco mais.

Fui até ao Parque Josone, um dos poucos parques públicos em Varadero, e aproveitei para relaxar um pouco por lá, enquanto procurava as minhas caches. Geocaching é uma forma bem divertida e diferente de conhecer um local, principalmente quando a meteorologia não está a nosso favor. Não tive lá muito sucesso, apenas encontrei uma cache, mas acabou por ser bem interessante conhecer o parque e explorar um pouco mais além do resort.

Casal a alimentar gaivotas em Varadero
Casal a alimentar gaivotas em Varadero

De volta ao resort decidi que tinha de pelo menos de entrar na piscina. O frio e o vento de facto não ajudaram muito, mas lá me meti na água a nadar um pouco enquanto outras pessoas bebiam os seus cocktails à beira da piscina. Em resorts com tudo pago é fácil acabar o dia bêbado, ainda para mais quando nem sequer se pode ir à praia. Mas eu cá fui tentando aproveitar ao máximo o tempo que lá estava, e ao mesmo tempo a lamentar-me por ter decidido passar por Varadero…

Para aproveitar um pouco mais, decidi marcar uma massagem, não foi nada de muito especial, mas deu para relaxar mais um pouco. Isto não estava incluído nos acessos com a pulseira, então tive de pagar à parte. Mas o tédio era muito grande, e tinha mesmo de improvisar alguma coisa.

Depois da massagem dei um salto até à sauna, que diga-se de passagem que não funcionava lá muito bem…, mas mais uma vez, serviu para o o objectivo que tinha. Queimar um pouco mais de tempo, e neste caso, também queimar gordura… E por fim, beber mais uns copos e voltar para a cama, que no dia seguinte seguiria rumo a Havana.

Eu apreciar a praia de Varadero
Eu apreciar a praia de Varadero

Acordar cedo, e ver que o sol finalmente decidiu dar ares de sua graça…, fui logo até à praia para ver se finalmente podia mergulhar naquelas águas. E não, estava ainda com bandeira vermelha…, o mar nem parecia nada de especial, mas como não conheço aquelas praias, não faço ideia de que tipo de correntes existem lá por baixo. Bandeiras vermelhas são colocadas por algum motivo, então decidi não arriscar. Mas aproveitei para tirar algumas fotos, pelo menos fica o registo de que estive na extensa praia de Varadero!

Com o checkout feito, estava na hora de seguir para o próximo e destino final. Havana! Não que estivesse contente de as férias estarem a acabar, mas os dois dias de relaxamento forçado em Varadero chegavam ao fim! Em Havana certamente teria mais que fazer, mesmo que o tempo não estivesse a favor.

Por Gil Sousa

Português emigrado em Cork, viajante e apreciador de boa comida.

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