Edimburgo à noite, lendas de meter medo

Quando se visita uma cidade com tanta história como Edimburgo, vale bem a pena investir um pouco mais de tempo e tentar aprender um pouco mais. A cidade é linda só por si, uma excelente cidade para explorar a pé e tirar algumas centenas de fotografias. Mas também vale bem a pena fazer algumas das excursões a pé. Algumas são pagas, outras são grátis. Nós fizemos uma das grátis, que no final damos o que acharmos que vale a pena dar, há quem nada dê…, mas não acho que seja justo fazer tal coisa.

Um pouco da nossa experiência na visita guiada por Edimburgo à noite

A nossa experiência foi bastante interessante, a nossa guia mostrou uma capacidade excelente para contar histórias, muito teatral e cativante. Até nos convidou a fazer parte figurante das histórias dela, o que deu para quebrar o gelo e colocar toda a gente a rir. Claro está, eu fui uma dessas cobaias.

Durante todo o roteiro contou-nos histórias e lendas de uma cidade que outrora foi a capital universitária da medicina. Muito se avançou na área da medicina em Edimburgo, mas muito também devido a alguns horrores.

Assassinatos e roubos de campas

Na altura a ética era algo completamente descartável, os estudantes de medicina para praticarem precisavam de corpos, e a origem dos mesmos era completamente irrelevante. Graças a esta falta de ética, criou-se um negócio paralelo de assassinatos para fornecer os estudantes mais abastados com corpos para estudarem. Assassinatos, roubos de campas e quem sabe o quê mais.

Durante a visita algumas histórias em concreto foram contadas, verdadeiras ou apenas mitos? Não sei bem. Mas uma das que melhor me recordo, conta a história que as pessoas mais ricas eram enterradas com alguns dos seus pertences mais valiosos. Claro que isso servia ainda melhor os interesses dos assaltantes de campas, que além dos corpos também levavam os bens materiais com valor. Um desses corpos que assaltaram era de uma senhora rica, que tinha um anel ou aliança bem preso no dedo, então para o arrancarem decidiram cortar o dedo…, ao que a senhora acorda com dores. Afinal não estava morta!

Algures por Edimburgo à noite
Algures por Edimburgo à noite

Maggie meia-enforcada

Esta é uma das histórias mais conhecidas de Edimburgo, e uma que nos foi contada durante o passeio. Uma história de “horror” mas com final feliz, quem não gosta de uma assim?

Margaret Dickson, conhecida por Maggie, foi uma mulher condenada à morte por conceber um bebé fora do casamento, e ele ter morrido.

Separada do seu marido, Maggie precisava de procurar trabalho e começou a trabalhar numa pousada-taverna. O filho do dono da taverna começou a ficar interessado nela, e passado pouco tempo ela ficou grávida. Para não prejudicar o seu trabalho manteve a gravidez em segredo. O bebé nasceu fraco e pouca saúde, e passados dias acabou por falecer.

Maggie, para proteger a sua reputação e trabalho não pode fazer um funeral ao bebé, então deixou-o no rio Tweed. Uns dias mais tarde o bebé foi encontrado, e as suspeitas recaíram sobre Maggie.

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A 2 de Setembro de 1721 ela foi enforcada pelo crime de esconder uma gravidez. Após ter sido declarada como morta, foi colocada num caixão de muito baixa qualidade, pois ela era de uma familia pobre, e o seu corpo foi movido para a localidade da sua familia, a 6 milhas de Edimburgo. Com o movimento da carroça e o ar que entrava pelas frestas do caixão barato, Maggie acordou, para horror de toda a sua família.

Este milagre foi considerado como um perdão de Deus aos olhos da Lei, e como tal foi absolvida de todos os crimes. O seu marido reconciliou-se com ela, e levou-a de volta a casa. Maggie viveu por mais 40 anos e teve vários filhos legítimos.

O povo de Edimburgo olhava-a com admiração e a tratava por Maggie meia-enforcada (half hangit Maggie).

A última execução pública em Edimburgo

As opiniões sobre condenação à morte são muito variadas, há quem concorde em casos extremos, há quem ache que matar outro ser humano nunca deveria ser considerado como uma alternativa. Mas opiniões à parte sobre a condenação, as opiniões sobre execuções públicas tendem a ser mais unanimes. E por vezes, é preciso um caso de horror para terminar com um espectáculo de morte.

O caso da última execução pública em Edimburgo foi tão horrífico que hoje em dia faz parte da história da cidade, e é uma das histórias que são contadas nas visitas guiadas por Edimburgo à noite.

A vida de George Bryce não tinha muito de interessante. Era uma pessoa de origens simples, mas que bebia muito. Devido ao seu trabalho conheceu Isabelle, uma jovem por quem ele se apaixonou. No entanto o romance não foi do agrado de uma amiga próxima de Isabelle, que a recomendou a terminar a relação devido ao problema de álcool de George.

Isabelle fez o que a amiga lhe sugeriu, e terminou a relação com George, ao que lhe contou os motivos e quem lhe tinha incentivado a terminar a relação. Com raiva, George invadiu o local de trabalho de Seton, a amiga de Isabelle, e tentou estrangulá-la perante várias testemunhas, que os separaram e imobilizaram George.

Seton fugiu, mas George conseguiu escapar e apanhou-a em frente à porta de uma casa, onde lhe cortou a garganta com uma navalha. George fugiu, mas foi apanhado na manhã seguinte onde não ofereceu resistência.

Devido à brutalidade do crime, a história espalhou-se bem rápido, e claro com algumas variantes da verdade. George sabia que com tantas testemunhas o seu julgamento seria claro, como tal declarou-se como culpado para evitar a morte certa. No entanto foi mesmo isso que aconteceu.

Apesar de na altura os enforcamentos públicos já não eram tão frequentes, neste caso centenas se juntaram para assistir à sua execução. Corda à volta do pescoço, abre o alçapão. E ele morre. Mas não foi assim que aconteceu…

Com as reformas da altura, os condenados a enforcamento de crimes em Edimburgo eram enviados para outras vilas e cidades, como tal não existia um carrasco na cidade. Então contrataram alguém para executar a pena de George, e foram para alguém não qualificado e a menor custo.

Por incrível que possa parecer, qualificações para executar uma pessoa são de facto importantes. E neste caso em concreto, a falta de qualificações deste carrasco resultaram num dos episódios mais traumáticos na histórica de Edimburgo.

O carrasco não teve em conta o tamanho de corda necessária para que a queda com a forca resultasse numa morte rápida. George ficou vários minutos em sofrimento com a corda à volta do pescoço, enquanto a população observava esse episódio de horror.

Aos poucos, a opinião mudava, o que antes era uma vontade de ver alguém que cometeu um crime horrendo pagar com a sua própria vida, passou a ser uma revolta geral de fazer alguém sofrer tanto quando a sua morte deveria ser rápida.

Este episódio ditou o fim das execuções públicas em Edimburgo de uma vez por todas.

A Caça às bruxas

A caça às bruxas é uma das histórias que se conta nos passeios por Edimburgo à noite. Durante uma época as acusações por bruxaria foram frequentes. Qualquer razão poderia ser um motivo para condenar alguém por bruxaria, e muitos inocentes foram mortos durante esta purga.

Algumas histórias nos foram contadas sobre a forma como “inocentavam” as bruxas. Com os polegares atados aos tornezelos, atiravam-nas para o lago. Caso flutuassem, então seriam condenadas por bruxaria. Caso contrário, seriam inocentadas. Claro está, em ambos os casos essas pessoas acabariam por morrer, e não há registo de nenhuma pessoa que tenha flutuado

Edimburgo foi uma experiência muito interessante, descobrir tantas coisas sobre uma cidade tão bela, e aprender mais sobre um passado bem negro. Uma cidade que recomendo vivamente a visitarem, e claro, a não deixar de conhecer bem mais sobre o que aquelas ruas encantadoras escondem…

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